Desabafo de um jardim de saudades

Para minha grande amiga, que também compartilha a grandiosidade de se ser mulher.

Não sei dizer-lhe ao certo o que me aflinge
se é furacão ou redemoinho
a única certeza que guardo
é que se tratam lembranças
Inquietude causada pelo vento
que é soprado de seu lugar vazio

Mesmo estando em um incessante inverno
recordo que tudo era novidade com sua chegada
A primavera acompanhou seu caminhar
o Sol aqueceu minha pele fria.
Pensei que aquele poderia ser um sinal
afinal, nunca sentira os raios solares antes...

E mesmo que aquilo fosse meu maior desejo
o grito de minha alma solitária
Tratei de levantar barreiras,
construi muralhas que me isolassem de ti
Mas a sua teimosia em não ceder era tão grande
Tal qual a vontade de tomá-lo para dentro de mim

Contrariei a mim mesma e aos poucos me expus
Todavia, enquanto o Sol brilhava majestoso
cegando-me de qualquer face da realidade
um vento frio soprava em minha face
Poderia o vento me deixar tão balançada
se o Sol estava a resplandecer em minha frente?

Mas eu queria tê-lo só para mim
Guardá-lo em meu coração como um raro presente
E então assisti ao que pensei ser primavera
se tornar outono, sem que nada pudesse fazer...
As flores murcharam, as folhas caíram
mas eu insistia em guardar as pétalas secas

E o Sol se foi, contrariando aos meus anseios
em seu lugar guardei apenas o rancor
Pois o meu Sol foi brilhar em outro coração
Fez outras flores desabrocharem em primavera
e eu, ferida, magoada, em meio a folhas secas
Me perguntei: por quê não meu jardim?

E depois de tanto tempo enfrentando o inverno
sem nem mesmo me agasalhar ou me proteger
percebi que você não era meu Sol.
Você não me fez florescer,
não permitiu que meu coração se aquecesse
me impediu de cultivar um jardim por você.

Que resta hoje pra lembrar daquela quase primavera
é aquele mesmo vento frio que me balançou
Ora ele vem leve, soprando os fios de meus cabelos
Me lembrando do tempo em que tu eras novidade
daquela ansiedade de ver um novo alguém
caminhando em direção à minha vida

Porém há momentos que ele vem forte
Balança e levanta as folhas secas que ainda ficaram
estremece a essência de mim que tento manter
trazendo em si a fúria e a mágoa
por não ter o meu Sol
por você não ser o meu Sol.

E você, menino
Hoje tu és presença para outra mulher
Mas para mim ainda é saudade
Saudade do que nunca mais encontrarei em alguém.
Saudade do momento em que o segundo Sol virá
e o vento que soprará em meu verão
atingirá minha pele, mas não balançará meu coração

26 de Agosto de 2017

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cansaço (e um pedido por trégua)

Ser mulher que ama outra mulher