Marielle

Hoje mais uma mulher negra foi morta. Para além do fato de este ter sido um assassinato encomendado, planejado, um “cale-se” concreto para uma voz questionadora, mais uma mulher negra teve sua vida ceifada. Marielle. Mulher, preta, militante, bissexual, mãe. Um único corpo que carregou em si as marcas das minorias. Desumanizada a tal ponto que teve a morte encomendada e realizada pelo disparo de 9 tiros de uma arma de fogo. E, ainda, hostilizada na Internet. Inescrupulosamente, Marielle teve a própria morte justificada pela prerrogativa de que “defendia bandido”. Em contrapartida, sua morte despertou a revolta daqueles que ainda enxergam os demais seres humanos enquanto seus semelhantes. Homenagens, vídeos, postagens, likes, compartilhamentos... Marielle pode ter tido sua trajetória existencial interrompida de forma brutal, contudo a sua breve existência transmutou-se em força que hoje move luta. Marielle não está morta, mas vive dentro daqueles que agora clamam por justiça.

I. Mulher

            Mais do que nunca, o feminismo tem se configurado em um movimento que cada vez mais ganha visibilidade. Se há cerca de cinco anos atrás mal sabíamos o que significava o termo, ou nós, mulheres, nos intitulávamos sem nem ao menos saber a história por detrás do feminismo, hoje a informação está acessível para todos aqueles que queiram aprender. E que também não tenho medo de mergulhar na mudança de paradigmas que representa a emancipação do machismo estruturalista.
            Não digo aqui que esta emancipação trata-se de uma libertação definitiva. Não se deixa de ser machista e de reproduzir o machismo quando se sabe o que o feminismo prega. E é por isso que o nomeio enquanto machismo estrutural. Este assume diversas formas, como se houvessem densidades que permitam identifica-lo. O machismo escancarado tornou-se politicamente incorreto. Contudo, isto não significa que este é o seu fim.
            Basta identificar o destino de vida de uma mulher da Idade Média. Objetificação. Moeda de troca para um bom negócio firmado entre pai e noivo. E ainda após o casamento, a mulher era encarada enquanto propriedade do marido, da qual este poderia obter sexo – a partir da justificativa de que era o dever da mulher cumprir com suas obrigações de esposa –, ter filhos, aumentar seu poder.
            Mesmo após a passagem de séculos, o cenário permanecia relativamente o mesmo. A mulher não tinha o direito de decidir sobre o próprio destino, salvo raras exceções que se configuram em um privilégio. O privilégio também é uma palavra que tem seu sentido deturpado por aqueles que também corrompem o movimento feminista. A simples oportunidade, facilitada ou não, de se obter objetos, projetos, estilo de vida, enquanto a grande maioria não tem acesso a isso, é um privilégio. As pessoas parecem ter medo de assumir o próprio trono de privilégios sobre os quais estão assentadas, como se este reconhecimento a arrancassem de seus respectivos confortos. E realmente arranca. O incômodo é um sinal de que paradigmas estão sob uma leitura rigorosa, passível até mesmo de intensas modificações. Modificações que colocam em cheque toda uma história de vida. É angustiante ter a própria trama existencial ameaçada, afinal, ela é a solidificação das falsas certezas que acumulamos sobre nós mesmos. Mas se a afirmação de que a existência precede a essência, modificando-a continuamente, é esperado que esta trama seja revisitada tantas outras vezes.


Sexta-feira, 16 de Março de 2018.

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