MELODRAMA


MELODRAMA

Olho uma última vez para a plateia
Performando minha antiga dor.
Em cada salto, cada retirada
Cada movimento que já conheço tão bem.
Eu costumava ser tudo isso.
Cada salto, espacate, giros.
Dancei até que minha plateia se esvaziasse
Danço uma última vez para as cadeiras vazias
Para as luzes apagadas
E a música desligada.
Em minha mente, revivo toda aquela sensação
Do primeiro espetáculo.
Minha primeira dança, tão aplaudida
Tão sentida.
Por muito tempo foi o que me definiu,
Mas não caibo mais nessas velhas definições.
Carrego em mim um infinito de possibilidades.
Cada pedaço ardendo, desejando vir à vida.
Mas eu preciso me despedir da minha última dança.
Foi a dança da minha vida,
Me ajudou a me manter viva.
Mas agora me retiro.
Meu novo ser me aguarda


Me via como um quadro branco,
Exatamente como me vejo agora.
Com a possibilidade de ser qualquer coisa.
Penso sobre as cores, as formas,
As emoções que em mim ganharão forma.
Sou um quadro branco
Em minhas próprias mãos.
A última vez que me vi de tal forma,
Sob a possibilidade de ser minha própria obra-prima,
Optei por ser algo que não era eu.
Entreguei meu pincel em outras mãos
Que fizeram riscos rudes, feios
Que eu não gostava,
Mas pelo menos ocupavam espaço.
Tentei desesperadamente consertar os traços,
Pois não queria perde-los.
E todos os que vieram depois
Pintaram o que quiseram no meu quadro.
Vários fragmentos diferentes reunidos no mesmo espaço.
Certamente não era o que eu queria,
Mas era o que eu tinha além de mim.
Até que eu me perdi...
Me procurei nos espaços em branco da minha própria pintura.
Me encontrei com as mãos no rosto,
Sem querer acreditar.
Ou ver.
Ou sentir.
Minhas lágrimas caíram sobre minha tela,
Manchando toda a pintura
Até ser um borrão sem forma.
Machucou muito ver o que me tornei,
Mas ao menos estava em minhas próprias mãos
E legitimando meus próprios sentimentos.
Eu sinto muito por mim mesma.



Eventualmente eu ainda me pego retornando para alguns pontos do passado. Me pego procurando por aqueles velhos sentimentos no meu peito, já que eram eles que me faziam sentir vida. A dor lembrava que meu coração batia. Que minha existência tinha um significado, nem que fosse sob a versão da vítima. Cheguei ao ponto de perceber que várias vezes fui vitimada, invadida, violada. Mas quando vi minha própria feição entre os meus abusadores, eu pude perceber que estava adicta à dor. Exaltei quem me feriu, pois sempre os coloquei maiores e mais fortes e mais malvados do que eu. Síndrome de Estocolmo? Maldita mania de achar que a dor dava algum significado para a minha existência. Por puro medo de descobrir que não poderia ser amada. Mas agora encontrando o amor em minhas próprias linhas – amor alimentado por mim -, tem doído ainda mais. O tipo de dor que liberta e emancipa. Estou pronta pra me desapegar das dores antigas.

- Esses abusos não mais dão significado à quem eu sou. Eu agora defino quem eu sou.





















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